Amazonas em plena divulgação do poema japonês – Haikai

Já imaginou? Poema em estilo japonês composto em língua portuguesa ganhando espaço em Manaus (AM)? Pois sim, os encontros mensais acontecem na sala de Estudos de Haikai, da UFAM e os participantes ativos são os mais variados possíveis, desde docente, discente, egresso e pós graduandos do curso de Letras – Língua e Literatura Japonesa da …

Haikai / Haiku – menor poema em estilo japonês do mundo

Já imaginou? Poema em estilo japonês composto em língua portuguesa ganhando espaço em Manaus (AM)? Pois sim, os encontros mensais acontecem na sala de Estudos de Haikai, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e os participantes ativos são os mais variados possíveis, desde docente, discente, egresso e pós graduandos do curso de Letras – Língua e Literatura Japonesa da UFAM e de outras unidades acadêmicas, funcionários públicos, simpatizantes do Haikai, entre outros.

O “Haiku” ou “Haikai” é um estilo de poema de origem japonesa, sendo o menor do mundo. O tradicional Haicai japonês, conciso e objetivo, possui uma estrutura composta em três versos (terceto) formados por 17 sílabas/sons poéticos e presença de Kigô – termo que indica a estação ou época do ano. No Brasil, destacam-se como grandes poetas na composição de Haicais: Paulo Leminski, Millôr Fernandes, Guilherme de Almeida e Paulo Franchetti.

Victoria Marcelle Maciel, poetisa, graduada em Letras e Literatura Japonesa da UFAM, tecnólogo em análise e desenvolvimento de Sistemas pela Estácio, participa do Encontro de Haikai e explica sobre os desafios de compor o Haikai em português: “Sinto que tenho dificuldade de trazer a cesura (Kireji em japonês) para o português. Na língua japonesa existem partículas que fazem esse “corte”, mas em português é necessário pensar melhor em palavras que possam trazer isso. Também tem o Kigô da região amazônica que não tenho conhecimento, então às vezes é difícil encaixar dentro do poema”.

Victoria acrescenta sobre a diferença entre Haikai em língua japonesa e em portuguesa: “conheço os poemas em japonês e penso que são diferentes, especialmente na estrutura e temáticas. Por exemplo, alguns Kigô do Haicai japonês não conheço porque é específico da cultura, fauna e flora da região”.

“Não tenho experiência com Haicai em língua japonesa, mas gostaria muito de fazer ou participar de alguma reunião. Sobre a língua japonesa, também tenho interesse em ter mais oportunidades de praticar a língua, pois quando conseguimos praticar no dia a dia, em diversos ambientes, conseguimos internalizar melhor. Ter escrito Haicai me possibilitou aumentar meu repertório pessoal e acadêmico, eu consegui compreender mais sobre poesia, natureza, sobre conseguir observar ao redor, coisas que não percebia antes”, finaliza Victoria.

Linda Midori Nishikido, poeta e docente da UFAM, graduada em Letras – Língua e Literatura Japonesa pela UFAM e mestre em Letras – Língua e Literatura Japonesa pela Universidadede de São Paulo (USP) e doutoranda do Programa de Pós Graduação em Antropologia Social desde 2024, relata que o grupo de Haikai “iniciou a prática de produção de Haicai em junho de 2023 e esse encontro faz parte do grupo de pesquisa “Estudos de Haikai: Lirismo, Haicaistas e Campo Literário”, criado em 2020, tendo como líder, o professor Cacio José Ferreira”.

E mais, a Professora Midori acrescenta “penso que não há grandes desafios na divulgação de Haikai, pois não há um número grande de pessoas que participam do grupo de Haicai. Os que participam é porque são simpatizantes da criação dessa arte. Talvez o desafio seria manter os participantes no grupo, pois desde que iniciamos as reuniões, em 2023, houveram entradas e saídas de pessoas. Algumas sem se justificar, outras em razão do trabalho ou outros compromissos prioritários”.

E sobre a repercussão da difusão do Haikai, a professora Midori finaliza “existem haicaistas maravilhosos, muito criativos e acredito que isso traz o encantamento e o anseio de continuar todo mês a produção de Haicais. Existem vários grupos de Haicais. Recentemente, fui convidada a participar do Encontro Nacional de Grêmios Haicai, de Toledo (PR). Nao pude ir por conta dos meus compromissos aqui em Manaus, porém encaminhei um vídeo falando um pouco sobre o Haicai no Amazonas”.

Origem do Haikai

As raízes dssa forma poética remontam à tradicional poesia japonesa chamada ‘Renga’ que é uma forma na qual vários poetas recitavam versos alternadamente que se desenvolveu do período Kamakura ao de Muromachi (1185 a 1573). Dentro do Renga, especialmente o “Haikai” que retratava as paisagens cotidianas e a natureza era apreciado pelo povo no periodo Edo (1603 – 1868) e o poema Haikai passou a ser considerado como arte, quando o poeta japonês Matsuo Basho surgiu aprofundando o Haikai e estabelecendo a forma atual do poema. Matsuo Bashô (1644-1694) notabilizou-se como um grande mestre de Haicai, permanecendo sua poesia como uma fonte de inspiração até hoje. Assim, o Haicai nasceu e se espalhou como uma poesia única do Japão pelo territorio japones e pelo mundo inteiro, esse último, sendo composto nas línguas do pais. No Brasil, esse estilo de poema continua sendo produzido com muita consistência, também em língua portuguesa.

O mais famoso Haikai de Bashô:

“Furu ike ya / Kawazu tobikomu / Mizu no oto” (em japonês)

“Velho tanque / Um sapo salta / Barulho d’água” (tradução literal)

Curso de Letras – Língua e Literaura Japonesa na UFAM

O Curso de Letras – Língua e Literatura Japonesa foi ianugurado em 2011 na UFAM o que proporcionou o desenvolvimento de novas pesquisas na área de estudo japoneses e assim foi criado em 2020, pelo então docente desse Curso, Cácio Ferreira, o grupo de pesquisa “Estudos de Haikai” e em 2023 foi realizado o primeiro encontro quando foi apresentado o estudo teórico sobre Haikai e a metodologia de produção desse poema. Assim, o encontro permanece até os dias de hoje.

Rosa Kamada

Rosa Kamada

Rosa Kamada é brasileira, “papa-chibé” e descendente de japoneses, graduou-se em Arquitetura e Urbanismo e Comunicação Social – Jornalismo e concluiu o curso de Mestrado em Engenharia Ambiental na Universidade de Osaka, Japão. Tem como hobby fotografar e viagem, assim como leitura e escrita, colabora com as imprensas local, nacional e internacional, produzindo matérias jornalísticas e reportagens publicadas em revistas do eixo Rio–São Paulo e no Japão. Atuou também como correspondente do jornal de São Paulo (SP).
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